Museu da Língua Portuguesa
em São Paulo

Publié le 02/09/2015 par Éditions Assimil
0 commentaire

WP_20150708_100

Naiana Bueno, de volta à sua cidade natal, aproveitou para visitar o Museu da língua portuguesa. 

« Museificar » a língua

O Museu da língua portuguesa, inaugurado em 2006 em São Paulo, no local da Estação da Luz, é mais um curso de história do que de linguística. Em um primeiro tempo, poderíamos nos perguntar « como expor, museificar a língua? » Ao procurar a palavra « museu » no dicionário, encontramos: « local, edifício onde são reunidas, tendo em vista sua preservação e sua apresentação ao público, coleções de obras de arte, de bens culturais, científicos ou técnicos. » Então, através de qual milagre a língua portuguesa se tornou uma obra de arte, um bem cultural, científico ou técnico para ser exposta em um museu?

A resposta é simples: fazendo parte das obras de arte, dos bens culturais, científicos ou técnicos produzidos em língua portuguesa.

Sério? Sério.

Uma antiga estação ferroviária, mas ainda uma estação ferroviária

Para se dar conta disso, primeiro é preciso chegar até lá. A estação da Luz fica no centro da cidade de São Paulo, ao lado do metrô, no bairro de mesmo nome. Luz. Como diz a palavra, talvez o projeto de museu neste local não tenha nada de arbitrário…Esclarecer nossos espíritos brasileiros a respeito da nossa própria língua? Iluminar o lado obscuro da língua portuguesa para os não lusófonos: a língua falada no Brasil é uma língua portuguesa ou uma língua brasileira? Oh, fiat lux!

A estação foi construída durante a metade do século 19. Inicialmente, era formada por uma plataforma e um pequeno edifício. Foi durante primeiros anos do século 20 que ela se tornou tal qual a conhecemos nos dias de hoje. Foi um arquiteto britânico, Charles Henry Driver, que dirigiu o projeto. A estrutura metálica (sim, naquela época tudo o que feito em metal era nobre e belo. Viva a Torre Eiffel!) e todo o material usado na iluminação da estação foi importado da Inglaterra.

Mesmo sendo uma das estações mais importantes de São Paulo, por causa da negligência com relação aos centros das cidades brasileiras — na época, as renovações e investimentos urbanísticos não aconteciam nos centros, que terminaram por se tornarem locais vetustos, mal frequentados, esquecidos — a estação e o centro de São Paulo (onde fica a estação) foram deixados de lado durante anos. Foi a partir de 2000, com um projeto de reabilitação do centro, que a percepção deste espaço urbano e dos 7500mda estação começaram a mudar.

A construção do museu também nos faz pensar no porquê da construção de um museu de língua portuguesa e não de um outro museu qualquer. Ora, a concepção/construção deste espaço não corresponde somente às datas de renovação do centro da cidade de São Paulo, mas também à expansão econômica do Brasil, que se tornou uma das maiores potências mundiais… Assim, a iniciativa de construção do museu, ao mesmo tempo privada e pública (Governo do Estado de São Paulo) é uma maneira de romper com a barreira que « isolava » o Brasil no canto dos países « recentes », « emergentes », « em via de desenvolvimento », etc, para colocá-lo no mesmo plano que algumas potências Europeias. Mostrar as relações entre a língua portuguesa e o português falado em Portugal ou com as línguas francesa, espanhola, com os dialetos africanos, com a língua japonesa, italiana é, enfim, uma maneira de mostrar as relações do Brasil com o exterior e não do exterior com o Brasil. É uma forma de se abrir ao mundo, mas também uma maneira de frisar a importância do país não somente como potência econômica, mas também cultural. Não esqueçamos que, sem sombra de dúvidas, realçar o lado cosmopolita e europeu dos brasileiros torna o Brasil menos « exótico »,menos « primitivo », mais « estruturado ». « Ufa » , o mundo capitalista adora países estruturados para nele investir… Não é uma novidade que as instituições museográficas (não todas, ainda bem!) tenham uma finalidade econômica antes de terem um objetivo educativo. Isso não quer dizer necessariamente que o Museu da língua portuguesa entre na casa dos museus interessados, mas quem sou eu para afirmar o contrário? Deixemos tais reflexões de lado — elas não fazem parte do que tenho a dizer —e entremos no museu, pois a estação ferroviária continua lá, ao lado, ainda em funcionamento, ligando São Paulo e sua periferia.

A relação entre a Estação e a língua é tão maluca quanto trazer uma estrutura metálica da Europa…pois a língua falada no Brasil também veio da Europa, mas se tornou brasileira. Porém, a língua ainda é chamada de portuguesa.

Para compreender melhor é preciso partir em viagem, como um trem, já que a museografia do Museu da língua portuguesa é um pouco como um trem que atravessa paisagens visuais, sonoras e túneis.

Embarque para a língua portuguesa

Para embarcarmos, compramos as passagens e avançamos até a plataforma. Normalmente, quando compramos uma passagem, sabemos para aonde vamos. Neste caso, saberemos para aonde vamos depois de compramos a passagem, no caso, a entrada: um filme de dez minutos conta a história da língua e a importância das línguas para a humanidade. Em seguida, a porta do trem se fecha e o trem dá partida. Seguimos em direção à Praça da Língua e, em tribunas, somos os espectadores de um espetáculo visual e sonoro onde os clássicos da poesia brasileira (Carlos Drummond de AndradeGregório de MatosFernando Pessoa e Luís de Camões, textos de Guimarães RosaEuclides da Cunha e Machado de Assis e músicas de Noel Rosa e Vinícius de Moraes) são projetados no espaço ao mesmo tempo que vozes, conhecidas ou menos conhecidas, cantam os poemas com os diversos sotaques que compõem o país. Ao final, um piso luminoso,no centro da Praça, acende, convidando-nos a percorrê-lo, andar sobre as palavras e sobre as poesias escritas no chão.

Em algumas cidades do interior do Brasil as praças têm um papel fundamental: são nelas, ou pelo menos eram nas praças, que iam e vinham as conversas, onde aconteciam os encontros, onde se realizavam as transmissões orais, como se nosso patrimônio linguístico tivesse nascido em uma conversa na praça ou em uma estação de trem. Ou melhor, em um trem em movimento perpétuo e, mesmo se você não fala bem o português, não tem problema, deixe-se transportar pela melodia da língua, pela grafia, pelo grafismo da praça.

Diversidade tão diversa

Nosso trem atinge a velocidade de cruzeiro na Grande Galeria, local que quase poderia ser a Grande Galerie de l’Evolution do Museu de História Natural, mas ao invés dos esqueletos e dos bichos empalhados, temos 106 metros de comprimento (sim, a sala tem mais de 106 metros) para descobrirmos onde, quando e como a língua portuguesa, pelo menos a língua portuguesa do Brasil, nasceu. Ao mesmo tempo que a cultura brasileira. Nasceu nos/dos costumes, na/da cozinha, nos/dos saberes, nos/dos esportes, nas/das músicas, festas, cotidiano, enfim, em tudo aquilo que chamamos de Cultura. Se você quiser percorrer os 106 metros e visualizar o conteúdo completo dos filmes deste telão, você despenderá 1h06 (11 filmes de 6 minutos cada um abordam diversos aspectos da cultura brasileira). Então não espere ver uma paisagem através de uma janela de trem bala. Os trens da Estação da Luz andam devagar, você também. Tudo isso nos faz pensar « nossa, como somos malucos!! ». A diversidade é TÃO diversa que só conseguimos sorrir. Na tela, Pelé passa a bola para Ronaldo, que passa para Raí, que passa para o Neymar que marca. O gol acaba e a imagem seguinte nos mostra a receita do vatapá, mas termina com uma receita de pizza explicada por brasileiros de origem italiana. Os vídeos nos fazem percorrer o tempo, o espaço, as culturas do Brasil, tudo ao mesmo tempo! É como num sonho: ao mesmo tempo sem pé nem cabeça e completamente coerente.

Jefferson Pancieri - MLP 3

 

Língua e mestiçagem

Mas e a língua portuguesa no museu? Ela está por todos os lados. Escrita, declamada, pronunciada, cochichada, cantada, pintada, desenhada. Nos painéis interativos o espectador pode descobrir a origem de algumas palavras usadas na língua portuguesa, já que, após diversos vais-e-vens das palavras entre o Portugal e o Brasil, não sabemos dizer quais palavras de origem tupi ou africana existem somente no Brasil. Cumbuca e sunga são dois exemplos. Pois bem, mesmo se considero bastante decepcionante estes museus que se obrigam a colocar interatividade para que o espectador se sinta menos « passivo » diante de uma obra de arte, aqui a interatividade tem um interesse: ela é quase documentária. O número de estudantes que frequentam o espaço é enorme e, para esclarecer e atrair os espíritos desta população, nada melhor que a luz de uma tela tátil (melhor do que colocar um livro à disposição, não?[1]). Bom, continuemos de tela em tela para descobrir, ou redescobrir, as palavras espanholas, tupis, africanas, francesas, árabes, inglesas que fazem parte da língua portuguesa do Brasil. Uma vez o espírito aberto, fazemos uma pausa na estação das palavras e suas raízes: três mesas táteis e interativas nos permitem juntar prefixos e complementos, compondo palavras. Uma vez composta, uma voz dá sua definição. É verdade que poderíamos passar horas tentando juntá-los até o final (o final das palavras, não o nosso), mas temos 106 metros a percorrer no sentido oposto. Desta vez, o caminho é linear. Um grande painel cronológico reúne todos estes dados vistos para nos contar a história da língua portuguesa. Sempre colocando em paralelo as relações com as histórias africanas e ameríndias. Nos anos 400, por exemplo, os povos da família tupi-guarani (um tronco do tupi) começaram uma migração em direção ao sul e ao sudeste brasileiro. Durante o século 16, tinham dominado uma grande parte da costa atlântica. Também foi a partir do século 16 que estas três vias (africanas, portuguesa e indígena) se encontraram para formar o português do Brasil. A constituição da língua portuguesa é, portanto, inseparável da história não linear destes três troncos.

Para nós, brasileiros, percorrer os corredores do museu é uma forma de colocar em palavras mais claras o que somos e de onde viemos, porque falamos assim ou assado. Uma forma de saber que todos nossos antepassados colaboraram para que as palavras que escrevo hoje, nestas linhas, sejam escritas desta forma e não de outra. Mais do que nunca, cada palavra tem seu peso, mas também um sentido que comunica não somente com o que desejamos dizer, mas também com o que somos.

Uma viagem só de ida

Justamente por isso que, mesmo não sendo lusófono, cada espectador poderá encontrar uma parte de si nesta viagem pela estrada da diversidade. Descemos do trem, mas a viagem continua, pois amanhã é uma nova página desta história que será escrita, dita, sonhada, vivida. Aliás, em um espaço destinado às exposições temporárias, podemos até mesmo escrever esta história. Um scriptorium, um lugar repleto de livros cujas páginas são quase todas brancas. Só as lombadas nos mostram as palavras: hora, amanhã, sonho, observação, comer…Cada um pode pegar uma caneta e escrever ou reescrever o que tais palavras significam, o que elas inspiram. Ou melhor, podemos usar as palavras das lombadas para formar frases, colocando um livro em cima do outro ou um ao lado do outro, como os vagões de um trem. O trem no qual estamos. O trem da história. Da história que se escreve graças às línguas e às culturas que formam o trem da história da língua portuguesa.

Digamos que este museu, como os outros aliás, é uma viagem somente de ida. Sem volta. Pois, ao sair de lá não somos mais os mesmos e é também por isso que se trata de uma viagem sem retorno.

Naiana Bueno, Agosto 2015

 

http://www.museudalinguaportuguesa.org.br/

[1] Por, favor, leia com um tom de ironia!

Ajouter un commentaire

Interviews

articles populaires

Les nouveautés de la rentrée

08/08/13
192 commentaires

Sanskrit : le making-of

06/06/13
111 commentaires

Nouveautés Assimil :
ce qui vous attend à la rentrée

24/06/14
103 commentaires

Nouveautés : ce qui vous attend
au premier trimestre 2014

01/01/14
74 commentaires

La méthode Assimil
disponible en digital

27/08/13
61 commentaires

Latin : retour vers le futur

28/09/15
57 commentaires

Les nouveautés de la rentrée 2015

05/08/15
55 commentaires

Une nouvelle ligne graphique
pour la collection sans peine

11/08/15
52 commentaires

Le roumain, Ionesco et la méthode Assimil : entretien avec Vincent Ilutiu

14/04/14
33 commentaires

Nouveauté :
l’anglais au quotidien 2014

14/10/13
29 commentaires

derniers commentaires

au hasard

Assimil au salon des langues
de Dunkerque 2017

10/03/17
0 commentaire

Concours langue mystère n°10

25/09/14
2 commentaires

Le nouveau site d’Assimil Italia
est en ligne

04/12/14
0 commentaire